O VALOR DA VIDA E AS LIMITAÇÕES NOS TRATAMENTOS DO CÂNCER


“O valor da vida não pode ser julgado, a vida não permite o juízo de um ser em particular” Nietzsche


Na oncologia clínica e também em outras especialidades oncológicas, diariamente estamos em contato com algumas pessoas gravemente enfermas e vamos concluindo, com o passar dos anos, que certas doenças, como o câncer e as tragédias, como o acidente aéreo recente que levou quase duas centenas de preciosas vidas, nivelam as classes sociais e de repente, todos se tornam iguais. Então pergunta-se quanto vale uma vida? Será que é possível fixar um valor para ela? Claro está que o valor da vida não se pode quantificar e ter um preço definido mas hoje , como em quase tudo, já temos índices para valorá-la.

Em medicina, cada vez mais tem sido usado um parâmetro para colocar um preço na vida, por mais difícil que isso possa parecer, com toda a controvérsia que isso possa trazer e já há algum tempo isso recebeu um nome em inglês, QALY, cuja tradução literal significa “anos de vida ajustados por qualidade”. É um conceito que tem sido usado de maneira crescente como uma medida que ajusta a quantidade de vida ganha pela qualidade daquela vida. Tem sido usada principalmente para a regulação e controle dos benefícios de certos tratamentos na área da saúde.

Quando vamos mais a fundo no assunto começamos a nos deparar com significados difíceis de aceitar porque o “valor da vida” passa a ser apenas um valor estatístico, reflexo do desejo de se pagar por reduções nos riscos de morte por determinada terapia e tem variado dependendo do interesse, no caso da medicina, daqueles responsáveis pelas políticas de saúde e fontes pagadoras e levantando sérios questionamentos do ponto de vista de ética médica e bioética, que tem merecido publicações em cultuados periódicos científicos. Ainda na oncologia , os executivos da saúde norte-americanos e agora também os deste lado da América tem fixado valores que tem ajudado a nortear as citadas fontes nas suas políticas de saúde mas tem levado cada vez mais a sérias implicações pois podem influenciar nas decisões médicas, limitando-as inúmeras vezes.

O tratamento do câncer evoluiu consideravelmente nos últimos dez anos, principalmente as custas de novos medicamentos, dentro das novas linhas da terapia biológica molecular, que hoje tem levado a cura doenças antes incuráveis, com índices de respostas surpreendentes. A oncologia clínica, por ser uma especialidade que faz uso desses medicamentos, que realmente tem elevado preço, tem ficado na linha de tiro da maioria dessas entidades que vêem seu custo cada vez mais elevado como um motivo para limitar, primeiro a autonomia dos pacientes em escolher seu médico e segundo interferindo cada vez mais na decisão médica usando sempre artifícios para dificultar quando não impossibilitar sua correta indicação . Uma das atitudes que vem sendo tomadas por essas operadoras tem sido a organização de serviços próprios para atendimento dos pacientes que necessitam de atendimento especializado.

Após recente congresso médico, caminhando por uma pequena cidade norte-americana, nos arredores de onde me encontrava, cidade pequena, com apenas uma rua importante de comércio, deparei-me com uma pequena livraria , daquelas bem familiares, que também vendem livros usados, com uma também pequena mensagem impressa pregada na vitrine, com o seguinte título: “Nós não somos mal-feitores”(We are not the bad guys). E o texto bem escrito explicava que, mesmo sendo uma pequena livraria, sem nome pomposo, fazia honestamente seu trabalho, atendia uma determinada população de clientes, pagava todos os impostos locais, estaduais e federais e dava oportunidade de emprego para algumas pessoas da comunidade além de contribuir para o ensino de outras, das minorias carentes. Tinha uma postura digna e tinha consciência do seu papel social e criticava aberta e honestamente o encerramento de algumas pequenas empresas como a sua naquela cidade e região apenas por serem pequenas, sendo substituídas por grandes conglomerados empresariais, impessoais, que de repente começavam a ameaçar e levar ao fechamento os pequenos estabelecimentos.

Pensei então nas atividades em vários outros países, inclusive o nosso, onde os pequenos vão fechando suas portas para que tudo seja englobado pelos grandes, quer sejam livrarias, lojas de eletrodomésticos, farmácias, os grandes e impessoais shopping centers, locadoras e concessionárias de veículos, uma lista interminável. E de repente encontrei-me levando o raciocínio para a minha profissão e principalmente a minha especialidade, oncologia clínica, que responde pelas terapias com medicamentos para o câncer. Dentro em breve seremos substituídos por grandes e impessoais serviços próprios operado pelas fontes pagadoras, pois os custos das terapias atuais na oncologia clínica encontra-se em crescente ascensão e os diversos convênios médicos, que acabam se transformando em grandes monopólios, quaisquer que sejam os nomes que utilizem, querem sempre baixar os custos , doa a quem doer, e resolveram acabar com a livre escolha de uma vez por todas, fazendo que em muito breve os pequenos serviços sejam coisa do passado, não duvidemos disso.

Infelizmente faltam-nos entidades de classe com solidez e poder suficientes para entrar nessa briga e ficaremos a mercê desse poder do mais forte, como aquela pequena livraria norte-americana fadada ao fechamento, esmagada pelo mais forte, apesar do seu protesto sincero mas infelizmente insuficiente para deter aqueles cujo poder econômico sempre falará mais alto.

E no nosso caso, que sabidamente também não somos mal-feitores, seremos substituídos por aqueles, que neófitos e inexperientes na profissão e especialidade, se submeterão aos ditames das grande empresas e aos seus grandiosos e impessoais serviços próprios.

Juvenal A.Oliveira Filho, oncologista clínico,Oncocamp

© Copyright 2011 - ONCOCAMP - Clinica de Oncologia Diag.e Terap. SC Ltda. - Rua Pe. Joaquim Gomes, 149 - Jd. Guanabara - Campinas - SP