Quem audita os conflitos de interesses?


“The purpose of disclosure is to make public the relationship and alert the patient or the reader... to potential prejudice or bias” Jerome Groopman

Como oncologista de safra antiga, dos que ajudaram a implantar as fundações da oncologia clínica deste país ainda conseguimos nos surpreender com certas atitudes, infelizmente cada vez mais comuns, de alguns colegas da especialidade. Na oncologia a palavra auditoria transformou-se em lugar comum, somos permanentemente auditados e patrulhados, temos a fama de sermos gastadores, perdulários, como se o fato do medicamento oncológico ter um alto custo dependesse de nós. Concordamos que com os novos medicamentos, principalmente os de terapia molecular, os custos realmente tem aumentado muito e há necessidade de controle, bom senso e um conhecimento médico/científico sólido. A educação médica continuada levada a sério ajuda muito neste particular. Colegas que só frequentam congressos para fazer turismo, e não são poucos, realmente se tornam uma ameaça e motivo constante de críticas, protestos e comentários maldosos dos colegas de outras especialidades.

Mas vamos voltar aos auditores , a essas novas figuras, que se consideram muitas vezes os donos da verdade, dessa nova sub-especialidade cada vez mais presente em nossas vidas. Em muitos casos são colegas que encontraram um nicho de trabalho ainda não explorado, um novo business e bastante interessante, pois conseguem servir a fontes distintas, compradores e vendedores com a vantagem de , como especialistas, poder usufruir dividendos das duas. Tivemos a oportunidade de assistir a uma palestra de um conhecido “opinion leader” gaúcho, a grande autoridade nacional da fármaco-economia, que na sua apresentação de conflitos de interesses, por sinal muito rápida, com tipos quase ilegíveis, apresentou de um lado praticamente toda a industria farmacêutica da nossa especialidade e do outro, no segundo diapositivo, um grande número de convênios, principalmente as Unimeds, de vários cantos deste país.

Nada contra descobrir um novo nicho de trabalho, mas fica nossa pergunta: Onde está a ética profissional , servir a dois senhores, um que vende, às vezes a preços abusivos e outro que paga, e quase sempre muito mal! E logicamente usufruir de dividendos dos dois. Isso é aceitável do ponto de vista ético?

Além disso este colega, como aconteceu em algumas cidades do interior de SP, como pode ser facilmente visto na internet e recentemente em Campinas, leva seus ensinamentos aos planos de saúde auxiliando os mesmos a criar seus serviços próprios, ou ainda orientar a comprar medicamentos e a fornecer aos oncologistas, enfim dar a receita de como uma operadora deve organizar-se para conter custos, tudo em detrimento ao trabalho do oncologista , o que vem acontecendo em escala ascendente em todo país.

Nossa sociedade tem uma Comissão de Ética e pensamos que frente a situações como essa , de interesses tão conflitantes, tem que se posicionar. Medicina baseada em evidências, fármaco-economia, tudo muito novo e atraente e sem dúvida acrescentando a nossa vida médica prática mas ser oncologista não significa apenas sentar-se numa mesa frente a um computador e dali disseminar conceitos que poucas vezes leva em consideração o paciente, sua vida e a qualidade da mesma. Temos que utilizar nossos conhecimentos em favor dos pacientes, oferecer condições para uma vida digna, mesmo que não exista chance para cura.

Hoje temos um grande exemplo no país na figura do nosso vice-presidente, José de Alencar, que, como é do conhecimento publico, sofre de uma doença já recidivada várias vezes e que está iniciando tratamento com uma nova droga , trabectidina, cujos resultados positivos tem sido mostrados em estudos fase II . Está levando uma vida ativa, com qualidade e tem ajudado a comandar o país nas freqüentes ausências do presidente. Tentemos pedir a um convênio, não essa droga que não temos por aqui ainda, mas qualquer outra já aprovada ou alguma combinação que mostre resultados favoráveis em estudos fase II ! A resposta categórica dos auditores das câmaras técnicas, nome pomposo para controladores de gastos, será um estrondoso NÃO, não existe respaldo na literatura é o que dirão.

Muitos devem ter acompanhado pela imprensa e pela internet a luta de um professor americano, Randy Pausch, recém falecido, com um câncer do pâncreas metastático no fígado, para viver mais algum tempo junto aos seus três filhos e esposa, a posição ética do seu médico oferecendo a ele tratamentos experimentais e deixando a ele a decisão de recebê-los ou não.

Que direito tem colegas que, no exercício de seus negócios pessoais, vendem idéias que lhes auferem lucros e com isso interferem nas condutas médicas de seus colegas para , de um lado incrementar o lucro da industria farmacêutica e do outro fazer com que as operadoras de saúde aumentem sua lucratividade?

Vale a pena ler no mais recente livro do oncologista americano, Jerome Groopman, How Doctor`s Think, o capítulo Marketing, Money and Medical Decisions . Podemos verificar como diferentes médicos podem pensar de forma diferente sôbre determinado problema médico e como incentivos financeiros e tendências pessoais podem moldar seus pensamentos.

Juvenal Antunes Oliveira Filho

oncologista clinico, ex presidente da SBOC

Campinas,SP

 

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